Violão: clássico (nylon) e de aço, como funcionam
O violão é um instrumento de cordas dedilhadas: você toca as cordas com os dedos ou com uma palheta, e o corpo oco de madeira transforma a vibração delas num som que dá para ouvir. Existem dois tipos principais: o violão clássico, com cordas de nylon, e o violão folk, com cordas de aço. Os dois são afinados do mesmo jeito, mas são construídos, tocados e soam de forma diferente.
Nesta aula
Conheça o violão
O corpo do violão tem uma “cintura”, uma parte que se curva para dentro no meio, e o braço é dividido por trastes. Os primeiros violões tinham quatro cordas; hoje o padrão são seis. Existem três tipos básicos de violão e guitarra: o violão de nylon (clássico e flamenco), o violão de aço (folk) e a guitarra elétrica. Esta página fala dos dois primeiros.
A maior diferença está nas cordas. No violão clássico, as cordas 1–3 são um único fio transparente de nylon, e as cordas 4–6 têm um miolo de cerca de 200 fibras de nylon enrolado com fio de cobre prateado. No violão de aço, as cordas 1–2 são de aço liso e as cordas 3–6 são enroladas com metal, muitas vezes bronze 80/20 ou bronze fosforoso.
As cordas de aço são muito mais esticadas: um jogo de nylon de tensão normal (D'Addario EJ45) soma 85,8 lb (38,9 kg) nas seis cordas, enquanto um jogo de aço 12–53 (EJ16) chega a cerca de 160 lb, mais ou menos o dobro. Como num elástico, quanto mais esticada a corda, mais difícil é apertá-la.
O violão de nylon é quase sempre mais baixo que o de aço, e a batida dele soa mais suave; as cordas de aço dão um som mais brilhante e definido. O nylon é usado em música clássica, flamenco, música latina, bossa nova, jazz e pop; o aço em folk, pop, rock, blues, country e bluegrass.
O braço do violão clássico é mais largo (52 mm na pestana, num Yamaha típico), tem as costas em meia-lua e se junta ao corpo na 12ª casa. O braço do violão de aço é mais estreito (43 mm), tem as costas mais triangulares e normalmente se junta ao corpo na 14ª casa, então dá para alcançar mais da escala com facilidade.
- Família
- Instrumento de cordas (dedilhadas)
- Classificação
- Hornbostel–Sachs 321.322-5: alaúde de braço com caixa, tocado com os dedos
- Cordas
- 6; de nylon no violão clássico, de aço no violão folk
- Extensão (som real)
- E2 a C6 (20 trastes)
- Clave
- Clave de sol, escrita uma oitava acima do som real
- Transposição
- Soa uma oitava abaixo do que está escrito
- Tamanhos comuns
- Clássico: 650 mm de comprimento de corda (Yamaha C40II); de aço: 25,4 pol ≈ 645 mm (Martin D-28)
As partes do violão
Da cabeça até a ponta, o violão é feito das partes abaixo. Os dois tipos têm quase todas as partes em comum; eles mudam nas barras escondidas por dentro, no jeito de prender as cordas e no escudo dos violões de aço: as cordas de nylon são amarradas no cavalete, as de aço ficam presas nele por pequenos pinos.
Os bons tampos muitas vezes são “espelhados”: uma peça de madeira é serrada em duas lâminas e aberta como um livro, e o desenho dos veios de um lado é o reflexo do outro.
Algumas peças ficam dentro ou atrás do instrumento, onde o desenho não consegue mostrar; os números indicam mais ou menos onde elas estão.

- 1Mão e tarraxas headstock / tuning keys
Girar uma tarraxa estica ou afrouxa a corda; é assim que você afina. Os violões clássicos usam quase sempre engrenagens abertas.
- 2Pestana nut
A pequena peça que segura as cordas do lado da cabeça, onde a corda solta começa a vibrar. Hoje normalmente é de osso, plástico duro ou latão.
- 3Braço neck
A parte comprida que a sua mão esquerda segura. O braço do violão de aço esconde uma barra de aço regulável, com cerca de 6 mm de grossura, que impede que ele entorte (o tensor).
- 4Escala e trastes fingerboard / frets
Onde você aperta as cordas; muitas vezes é de ébano. Quando você aperta, o traste de metal vira o novo ponto final da corda; cada casa em direção ao corpo sobe a nota meio tom (um semitom).
- 5Tampo top / soundboard
A tábua fina da frente, muitas vezes de abeto (spruce) ou cedro vermelho, com cerca de 2,5–3 mm de espessura. A vibração das cordas chega até ele pelo cavalete, e o tampo empurra o ar; o fundo importa bem menos para o som.
- 6Boca e roseta sound hole / rosette
Liga o ar de dentro do corpo com o ar de fora e ajuda a fazer uma ressonância grave; o anel em volta é um enfeite incrustado.
- 7Escudo pickguard
Nos violões de aço, uma placa fina ao lado da boca que impede a palheta de arranhar o tampo. O violão do desenho é um clássico, que normalmente não tem escudo; o número mostra onde ele fica num violão de aço.
- 8Barras (leque ou X) bracing
Barrinhas finas de madeira coladas por dentro do tampo. Elas aguentam a tração das cordas e moldam o som: em leque nos violões clássicos, em X, maiores e mais fortes, na maioria dos violões de aço.
- 9Cavalete e rastilho bridge / saddle
Seguram as cordas do lado do corpo e passam a vibração delas para o tampo. O cavalete é de madeira dura, como ébano ou jacarandá; o rastilho muitas vezes é de osso.
- 10Laterais e fundo sides (ribs) / back
Formam a borda e as costas do corpo, muitas vezes de mogno, jacarandá ou bordo. O fundo importa muito menos para o som do que o tampo.
De onde vem o som
A corda é tão fina que quase não empurra o ar quando balança, então sozinha ela soa muito baixinho. Balance um palito de churrasco e você quase não sente vento; balance um leque e sente. O violão passa a vibração da corda pelo rastilho e pelo cavalete até o tampo, e o tampo largo consegue empurrar muito ar.
O corpo não é bem um amplificador: toda a energia vem do seu toque na corda, e o corpo só transforma a vibração da corda em vibração do ar de um jeito mais eficiente, mais ou menos como o cone de um alto-falante. De forma simplificada, as notas agudas vêm principalmente do tampo, movido pelo cavalete, enquanto boa parte do som grave vem do ar de dentro do corpo, que sai pela boca.
O ar de dentro também ressoa. O ar na boca do violão é empurrado para a frente e para trás, como o “uuu” que sai quando você sopra na boca de uma garrafa vazia; isso se chama ressonância de Helmholtz e, no violão, fica entre F#2 e A2, dependendo do instrumento. Uma boca maior dá mais volume; uma menor soa mais baixo, mas mais redondo.
A altura de uma corda depende de quatro coisas: massa, tensão, comprimento e o jeito como ela vibra. Cordas mais pesadas, mais frouxas e mais compridas soam mais grave. Com o mesmo comprimento e a mesma tensão, uma oitava abaixo precisa de quatro vezes o peso; por isso as cordas graves usam um miolo fino enrolado com fio de metal: mais pesadas, mas sem ficarem duras demais.
Quando você aperta uma corda, o traste toma o lugar da pestana como ponto final, a corda fica mais curta e a nota sobe. Na 12ª casa, a corda tem metade do comprimento: uma oitava acima; na 7ª ela tem 2/3, e o E vira B; na 5ª ela tem 3/4, e o E vira A. Cada semitom multiplica o comprimento por cerca de 0,944, por isso as casas vão ficando mais estreitas perto do corpo.
O lugar onde você toca muda o timbre: perto do cavalete o som é mais brilhante, e tocar a um terço da corda deixa de fora os harmônicos 3º, 6º, 9º… Um toque em direção ao tampo começa forte e some rápido; um toque paralelo ao tampo é mais fraco, mas soa por mais tempo.
Logo depois do toque, a corda tem uma dobra pontuda, cheia de frequências agudas; elas somem depressa, então depois de mais ou menos um segundo o som fica mais redondo. As cordas de nylon balançam com mais amplitude e precisam de mais espaço entre si, por isso o braço do violão clássico é mais largo; as cordas de aço puxam com tanta força que o tampo precisa de barras maiores e mais fortes.
Experimente: toque a corda A solta (5ª corda) e passe devagar um pedaço de papelão para lá e para cá na frente da boca do violão. Escute como o som muda. Você também pode encostar o ouvido perto da boca e cantar baixinho notas graves entre F#2 e A2, para achar a que faz o corpo soar junto.
Como tocar
O violão clássico normalmente é tocado sentado: o pé esquerdo num banquinho, a cintura do violão apoiada na perna esquerda e a cabeça do violão à esquerda, levantada mais ou menos até a altura dos olhos. O que encosta no violão é o seu antebraço direito; o cotovelo direito se apoia na lateral do corpo, com o pulso e a mão soltos.
O polegar esquerdo apoia as costas do braço, enquanto os dedos ficam em pé e apertam com as pontas. Aperte logo ao lado do traste, do lado da cabeça, e não em cima dele; senão a carne do dedo segura a vibração e a nota sai abafada.
Quem toca violão clássico normalmente usa do polegar até o anelar e geralmente não usa palheta; os dedilhados são marcados p (polegar), i (indicador), m (médio) e a (anelar). O violão de aço é ótimo para acompanhar o próprio canto, quase sempre com palheta, fazendo batidas ou acordes arpejados (as notas de um acorde uma de cada vez).
Na batida, conte em voz alta: primeiro bata só no tempo 1, depois em mínimas, semínimas e colcheias; na colcheia do “e”, bata para cima, normalmente pegando só as três cordas agudas. O rasgueado do flamenco usa todos os dedos; o hammer-on (ligado ascendente) faz uma nota soar batendo um dedo da mão esquerda na escala, e o pull-off (ligado descendente) tirando o dedo; o capotraste prende o braço para você subir o tom sem mudar o desenho dos acordes.
- Sem apertar nenhuma casa, toque as cordas 6, 5, 3 e 1: E2, A2, G3, E4. Escute o som macio do nylon.
- As mesmas quatro cordas soltas num violão de aço: E2, A2, G3, E4. Compare como o começo de cada nota é mais definido.
- Na 1ª corda do violão clássico, primeiro o E4 solto, depois a 12ª casa, onde a corda tem metade do comprimento: E5.
- Na 1ª corda do violão de aço, o E4 solto, depois a 13ª casa: F5. Doze casas fazem uma oitava; mais uma soma um semitom.
Extensão e escrita
A música para violão é escrita na clave de sol, mas, por convenção, uma oitava acima de como soa. Algumas partituras colocam um pequeno 8 embaixo da clave de sol para lembrar que o som sai uma oitava abaixo.
Por exemplo, a 5ª corda solta é escrita como A3, mas soa como A2 (110 Hz). As seis cordas soltas são escritas E3, A3, D4, G4, B4, E5 e soam como E2, A2, D3, G3, B3, E4. Cordas vizinhas ficam quase sempre a uma quarta justa uma da outra; só do G (3ª corda) para o B (2ª corda) é uma terça maior.
A nota mais grave é a 6ª corda solta, E2 (cerca de 82,4 Hz). A mais aguda depende dos trastes: num violão de 20 trastes, a 1ª corda chega ao C6, num de 19 trastes ao B5; na escrita do violão, isso vai de E3 a C7. A 6ª corda muitas vezes é afinada um tom abaixo, em D (drop D), acrescentando o D2 lá embaixo.
Ouça
- Primeiro o violão clássico, depois o de aço. Os dois tocam E2; qual começa mais definido e qual soa mais suave?
- Essa nota fica perto da ressonância do ar do corpo (cerca de F#2 a A2). Compare quanto tempo e com que corpo a nota grave soa em cada violão.
- A corda G do violão clássico é um único fio de nylon; a do violão de aço é enrolada com metal. Ouça a diferença de timbre.
- O comecinho da nota é mais áspero; depois de mais ou menos um segundo, ela fica mais redonda, porque as frequências agudas somem.
- O E5 do violão clássico na 12ª casa, depois o F5 do violão de aço na 13ª casa.
História e família
O violão surgiu na região da Espanha há cerca de 500 anos (séculos XV–XVI). Os violões do século XVI eram bem menores que os de hoje, com quatro ordens (pares de cordas), cordas de tripa e trastes de tripa amarrados em volta do braço.
Uma quinta ordem foi acrescentada por volta de 1600, dando origem à “guitarra espanhola”. No século XVIII, os trastes de tripa amarrados deram lugar a trastes fixos de marfim ou de metal e, mais para o fim do século, foi acrescentada uma sexta ordem. Por volta de 1800, os pares viraram seis cordas simples afinadas E–A–D–G–B–E, a mesma afinação de hoje.
Muito do violão clássico moderno vem do construtor espanhol Antonio de Torres (1817–1892). Ele começou a construir nos anos 1850 e fez corpos mais compridos e mais largos, para um violão mais forte. Ele não inventou o leque harmônico, mas o aperfeiçoou e o tornou comum.
A história do violão de aço é americana. C. F. Martin abriu sua empresa em Nova York em 1833 e, em meados do século XIX, a empresa Martin desenvolveu as barras em X, que depois permitiram que os violões aguentassem a tração das cordas de aço. Músicos em turnê precisavam de um volume que chegasse ao fundo da sala de concerto, então a empresa trocou bem depressa as cordas de tripa pelas de metal, e os violões de aço se espalharam no começo do século XX.
Durante a Segunda Guerra Mundial, faltavam cordas de tripa, porque a tripa era usada para costurar ferimentos nos campos de batalha. O construtor nova-iorquino Albert Augustine trabalhou com o violonista Segovia para desenvolver as cordas de nylon, lançadas no fim dos anos 1940.
Os parentes do violão incluem o alaúde, a vihuela (uma prima maior, com mais cordas) e o violão flamenco (corpo mais fino, som mais vivo e mais seco, que some rápido), além do violão de doze cordas, da guitarra elétrica e do charango sul-americano. As quatro cordas do ukulele têm os mesmos intervalos que as cordas 1–4 do violão, mas em alturas diferentes.
- Séc. XV–XVIO violão surge na região da Espanha; os violões do século XVI têm quatro ordens e cordas de tripa
- c. 1600Uma quinta ordem é acrescentada; a “guitarra espanhola”
- 1759O violão com leque harmônico mais antigo que se conhece, atribuído a Francesco Sanguino, Sevilha
- Séc. XVIIITrastes de tripa amarrados substituídos por trastes fixos; uma sexta ordem acrescentada na segunda metade
- c. 1800Seis cordas simples afinadas E–A–D–G–B–E
- 1833C. F. Martin abre sua empresa em Nova York
- Anos 1850Antonio de Torres começa a construir e dá forma ao violão clássico moderno
- c. 1916Aparece o formato de corpo Dreadnought
- Fim dos anos 1940Chegam as cordas de nylon para violão clássico
Para começar e cuidados
Na hora de escolher o seu primeiro violão, segure-o: a mão esquerda tem que alcançar a ponta mais distante da escala; se não alcançar, escolha um comprimento de corda menor; quem é menor pode usar um tamanho 3/4. As cordas de nylon têm menos tensão que as de aço, e muitos iniciantes acham mais fácil tocar com elas. Cordas baixas (a altura das cordas acima da escala, a “ação”) são mais fáceis de apertar, mas baixas demais causam trastejamento ou notas que não soam; por isso peça para um luthier qualificado regular.
O violão é feito de madeira; 45%–55% de umidade é o ideal, e um ar seco demais pode rachar a madeira e descolar o cavalete. Como um elástico, o nylon na verdade encolhe quando esquenta (o efeito Gough–Joule); por isso o violão clássico sobe de afinação no calor, principalmente nas cordas 2 e 3.
- Toda vez que terminar, limpe o suor e a gordura com um pano seco próprio para instrumentos; não use pano de silicone, que pode estragar o verniz.
- Troque as cordas de nylon pelo menos a cada 6 meses, de preferência a cada 3; as de aço todo mês ou a cada poucas semanas se você toca todo dia, ou mais ou menos a cada 3 meses se toca menos. Troque as seis juntas.
- Afine cada corda subindo até a nota, vindo de baixo; afinar descendo até ela costuma deixar a corda desafinada.
- Guarde o violão no estojo quando não estiver tocando e tire o capotraste, em vez de deixá-lo preso dentro do estojo.
- Vai ficar mais de 2–3 semanas sem tocar o violão clássico? Afrouxe as cordas algumas voltas.
- Braço empenado, cavalete descolando ou trastes muito gastos são trabalho para um luthier profissional; se o cavalete estiver descolando, não coloque cordas novas até ele ser consertado.
- UNSW Music Acoustics: Guitar acoustics, an introduction
- UNSW Music Acoustics: Anatomy of the guitar
- UNSW Music Acoustics: Strings, standing waves and harmonics
- Acoustical Society of America: Sandra Carral, plucking position and timbre
- MIMO Hornbostel–Sachs vocabulary: 321.322-5
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- The Met: The Spanish Guitar
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- Yamaha Hub: The basics of teaching classical guitar
- Martin Guitar: D-28 specifications
- Augustine Strings: About
- Taylor Guitars: Using a guitar humidifier
- D'Addario: EJ45 Pro-Arté nylon strings, normal tension
- D'Addario: EJ16 phosphor bronze strings, light 12–53
- Yamaha: C40II specifications
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Som de piano: Salamander Grand Piano, de Alexander Holm (CC BY 3.0).